- “E a Lady Laura? Ela vai bem?”, pergunta a revista Billboard Brasil ao filho de Lady Laura, o cantor que mais vendeu discos na história do país.
- “Tá bem, tá bem. Está quietinha lá”, responde um sorridente Roberto Carlos, de pé, no camarim, onde se refugia após o último dos nove shows no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, em 3 de setembro passado.
- “Ela não vem mais aos shows?”
- “Não vem, está com 94... Mas não fala a idade dela. Se alguém souber, ela vai até a revista brigar com vocês!”, brinca.
- “Está com 94? Ela mora com você?”
- “Mora. Eu moro no quinto andar, ela no quarto”, ele continua a sorrir e encerra o papo desejando um jovial “vão com Deus” aos visitantes.
E surpreendente não é apenas a longevidade da mãe de Roberto Carlos. Os últimos meses da vida do homem que vendeu mais de 120 milhões de discos têm sido dedicados a um roteiro intenso de comemoração pelos nada menos que 50 anos de carreira em ritmo de fênix. Os anos 90 e parte dos 2000 não foram fáceis para ele, mas, ultimamente, RC anda rindo à toa – e chorando a todo momento. Algo se renovou na sólida e longeva aliança constituída com o Brasil desde o sucesso do rock “Splish Splash”, do álbum homônimo, lançado em 1963.
Isso se nota em cada detalhe, seja no forte domínio exercido sobre as emoções da plateia, seja pelo poder intacto e aprimorado de uma voz hoje com 68 anos de idade. É possível entrever um traço de surpresa e incredulidade em seu semblante emocionado pela sucessão de homenagens e choradeiras, como a que protagonizou com o parceiro Erasmo Carlos durante a apresentação no Maracanã, no último dia 11 de julho. Acalmada a tormenta, este homem está visivelmente bem, mais uma vez. Cantor de mais de 400 músicas e compositor de mais de 500, Roberto Carlos, acredite, temeu topar o desafio de se apresentar mais uma vez no grande estádio carioca. “Quando propus, ele disse, com humildade: ‘Não, não, eu tenho medo, não vai lotar’”, espanta-se Dody Sirena, seu empresário há 17 anos. Colocados à venda, os ingressos se esgotaram em cinco dias e o show foi visto, sob forte chuva, por 68 mil pessoas.
Está na cara que, superados os receios iniciais, o cantor pegou o embalo das festividades. “Ele está em estado de graça, não sabe como retribuir”, afirma o empresário. “É claro que sabe o que representa, mas diz que não imaginava que viveria tudo isso. Vai às lágrimas sempre que fala do momento que está vivendo.” É Dody quem fala à Billboard Brasil em nome de Roberto, uma vez que, à parte as poucas palavras reproduzidas acima, o cantor mantém a antiga e firme decisão de não dar entrevistas fora dos ambientes de coletivas impessoais e dos programas da Rede Globo, da qual é artista contratado e exclusivo desde dezembro de 1973.
Arquitetada nos últimos três anos, a festa de aniversário seria, inicialmente, um único e histórico show, no Maracanã ou na praia. A ideia cresceu e acabou tomando 365 dias da vida do Rei. Simbolicamente, o ano comemorativo começou na cidade natal de Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, em 19 de abril de 2009, data que, além de ser o dia do índio, marca o aniversário do cantor. E o giro terminará em 19 de abril de 2010, no pomposo Radio City Music Hall de Nova York. O próprio Roberto definiu o marco inicial de contagem dos 50 anos, 1959, quando recebeu seu primeiro cachê profissional – “não pelo valor da moeda, mas pelo sentido profissional”, segundo as palavras do empresário.
“Não tínhamos como principal objetivo o negócio, mas a celebração”, afirma Dody, que além de agente e empresário de RC é seu “sócio em muitos investimentos”. Mas ele sabe que tem em mãos não apenas várias toneladas de emoção coletiva, mas também uma impressionante fábrica de lucros. A permanência e a renovação se alicerçam numa poderosa máquina de marketing. Você pode nem ter percebido, mas falou-se sobre Roberto Carlos o tempo todo neste ano.
Até dezembro, seu show terá sido visto ao vivo por 500 mil pessoas, em cerca de 50 shows (em tempos idos, chegou a fazer cerca de 220 apresentações por ano; hoje, a média oscila em torno de 40). “Como ele foi admitindo ter essa celebração, fui apresentando uma ideia que virou um todo, um produto de mercado, de patrocínio”, diz o empresário. Garoto-propaganda de uma indústria de alimentos há cinco anos, RC recebeu neste ano também o aporte de patrocínio de um banco. “Fui buscar parceiros, fui à Rede Globo, provoquei eles a pensarem em fazermos isso juntos. Avaliaram que o ideal para a Globo era uma quinzena de programação.
De início, Roberto se assustou, questionou. Ele faz um programa por ano, ia aparecer em cinco, os telejornais iam falar direto.”
Mas acabou topando, e o roteiro imaginado segue a todo vapor. Em setembro, chegou às lojas o primeiro produto especial extraído das festividades, o DVD e CD duplos Elas Cantam Roberto Carlos, sob o logotipo da Sony Music (ex-CBS), gravadora do cantor desde 1960. Gravado no Teatro Municipal de São Paulo, o show reuniu 20 cantoras brasileiras – da parceira pop de primeira hora Wanderléa à erudita Celine Imbert – em reinterpretações do cancioneiro de Roberto & Erasmo.
Mais dois espetáculos (e CDs e DVDs) nessa linha vêm aí. Em janeiro, deve ser gravado o Roberto Carlos Rock Symphony, com orquestra sinfônica e uma big band formada por integrantes de vários grupos brasileiros de pop-rock, sob produção de Carlos Eduardo Miranda. Devem participar Frejat, Paralamas do Sucesso, Nando Reis, Skank, Jota Quest, Pitty, NX Zero. E Dody faz uma revelação: “O próprio Chorão estranhou, mas Roberto é realmente fã do Charlie Brown”. A seguir, em março, deve acontecer, nos mesmos moldes, o Emoções Sertanejo, de título autoexplicativo.
Dono da empresa DCset, em sociedade com Cicão Chies, o gaúcho Dody Sirena vinha de larga experiência no agenciamento de shows internacionais no Brasil e na América do Sul. Trouxe, entre outros, Michael Jackson, Luciano Pavarotti e Rod Stewart. “Com toda minha experiência trabalhando com Liza Minnelli, Frank Sinatra, Ray Charles, Donna Summer, posso dizer que, indiscutivelmente, Roberto é o mais profissional de todos, em termos de disciplina, horário, comprometimento”, afirma. “A exigência consigo próprio é absurda. O perfeccionismo até passa dos limites, particularmente me incomoda às vezes.”
Elemento integrante da fase de vento a favor, a lendária inclinação de RC às superstições parece mais controlada do que nunca. Dody oferece um exemplo de impacto: “As superstições sempre afastaram Roberto do número 13. Pois ele deu o OK para um show na sexta-feira, 13 de novembro, num cassino em Punta del Este (Uruguai). Junta três coisas de que ele sempre se afastou: o 13, a sexta-feira 13 e o cassino, que considera um local não religioso ou inapropriado”.
Tratadas em tom anedótico pela mídia há décadas, as manias adquiriram outra conotação quando Roberto revelou, na tela da Globo, que era portador de TOC – transtorno obsessivocompulsivo. Era 2002, e a repórter Glória Maria reagiu a gargalhadas, provavelmente despreparada para a sigla até então pouco difundida. Até hoje a troca do termo “manias” pela sigla TOC não está plenamente assimilada, mas RC foi um dos principais responsáveis pela popularização do quarto transtorno psiquiátrico mais frequente, de acordo com o pesquisador José Alberto Del Porto. Outros estudos indicam que a doença acomete cerca de 3% da população mundial.
“Foi ele que identificou o TOC e foi buscar informações”, conta Dody. “Começou a devorar livros antes de ir ao médico quando descobriu que havia essa doença. Até hoje faz disciplinadamente as sessões de terapia. E fala do assunto em público, como se quisesse dizer: ‘Não perca tempo, não se considere um supersticioso contumaz. Não sofra como eu sofri esses anos todos’.”
Também a recusa obsessiva à cor marrom ganha outro contorno. “O avô dele não gostava de marrom, sempre criticava a cor. Quando começou a ganhar uma graninha, Roberto foi numa loja para se arrumar. Quando experimentou uma camisa marrom, veio a lembrança da infância, pensou ‘vou respeitar o meu avô’. Ele, de fato, não gosta, mas já chegou em quarto de hotel totalmente marrom e ficou. Hoje se sabe que o TOC tem um componente hereditário.”
Se 2009 é um ano atípico em relação a acontecimentos e lançamentos, o mesmo não se pode dizer sobre a superlativa infraestrutura de shows, que há décadas não encontra rivais na música brasileira. A Billboard Brasil teve a oportunidade de testemunhar, por trás dos bastidores, como funciona a intrincada engenharia que permite a concretização de um show sem incidentes nem falhas perceptíveis. A grife Roberto Carlos movimenta cerca de 60 funcionários fixos, de músicos ao rapaz que cuida das 12 dúzias de rosas vermelhas e três dúzias de rosas brancas distribuídas aos fãs ao final de cada show. Fora esses, há todo um contingente de trabalhadores esporádicos terceirizados.
O rosto mais conhecido entre eles é o de Eduardo Lages. Músico surgido no final dos anos 60 no bojo do chamado MAU – Movimento Artístico Universitário (do qual despontaram Ivan Lins, Gonzaguinha e Aldir Blanc), é conhecido há 31 anos como o maestro de Roberto Carlos. E é superlativo ao falar de 2009 na sala árida reservada aos músicos nos bastidores do Ibirapuera, minutos antes de entrar no palco: “Eu acho que Roberto está no auge. Automaticamente, acabo me sentindo no auge também”. E dá testemunho sobre o humor atual: “Do Maracanã para cá, Roberto já entra no palco chorando”.
O maestro improvisa uma explicação simultânea sobre o atual bem-estar e o funcionamento da engrenagem RC: “Tudo se deve muito ao empresário. O grande mérito do Dody foi ter conseguido que Roberto delegasse poderes a pessoas extremamente confiáveis. E ele formou um time ideal, de quatro pessoas que adoram Roberto como ser humano e são competentes e experientes. Isso está se refletindo mais de um ano para cá”.
E nomeia o time. Dody Sirena. Guto Romano, produtor executivo. Genival Barros, gerente geral técnico. Eduardo Lages, gerente musical geral. A seguir, derrama elogios a um deles: “Genival seria o que mais faria falta. Ele é o coração disso tudo, um apaixonado por Roberto Carlos”.
Rosto anônimo para a maioria do público, Genival, de fato, tem muito em comum com o patrão. Como RC, transborda simpatia e afabilidade. Como RC, comunica-se com cuidado, zeloso por não falar mais do que manda a discrição. Tem 69 anos e conhece o artista há 44, desde quando, sonoplasta da TV Record, era o técnico de som do programa Jovem Guarda, a coqueluche musical-televisiva capitaneada nas tardes de domingo por Roberto, Erasmo e Wanderléa. “A gente está unido até hoje. Isso representa uma tranquilidade para ele. Há muitos anos a equipe é a mesma – o mesmo motorista, a mesma empresa de transporte. Roberto trabalha com uma reserva de certeza muito grande, de pessoas que sabem do que ele gosta, para sair tudo igual”, diz. “Aqui a gente só sai quando morre ou se quiser. Como ninguém quer sair...”, deixa o fim da frase no ar.
Genival é quem estuda previamente os locais de show e se preocupa em escolher o melhor ponto para montar o camarim do cantor, ou em garantir a melhor potência possível de som na hora H. “Hoje em dia ele nem vem passar mais o som, a não ser nas estreias. A gente mesmo ajusta tudo.” Descreve as dificuldades de um local como o ginásio do Ibirapuera: “O maior problema é a deficiência acústica. Não é um espaço projetado para fins musicais. Mas hoje existem programas de computador que conseguem fazer uma varredura completa”.
O camarim exclusivo de Roberto é simples, sem qualquer luxo. E portátil. Feito de divisórias e instalado o mais perto possível do palco, segue o artista onde quer que ele se apresente. Tem dois aposentos, um reservado, de 3 x 3 metros, e outro completamente desmobiliado, de 5 x 3 metros, onde o cantor recebe os convidados e os (relativamente poucos) espectadores com acesso ao backstage ao final das apresentações.
Genival conta que a parafernália soma 60 toneladas. Se segue por terra, é carregada em três carretas de 14 metros. Para distâncias maiores, é transportada em avião de carga. Nessa quinta-feira de encerramento de temporada, o processo de desmontagem começará assim que Roberto sair do palco e o público começar a se retirar. O camarim será o último. “Temos que entregar o ginásio como recebemos ao meio-dia. Cada um já sabe o que tem que fazer, na tranquilidade, sem correria”, diz Genival, descrevendo uma mecânica parecida à de um circo pós-moderno.
A Guto Romano cabe cuidar da logística do deslocamento da equipe. Escolhe voos, providencia passagens e hospedagens, orienta os seguranças, calcula horários e traça as rotas de chegada e saída do cantor de hotéis e casas de show. Procura-se sempre fazer Roberto entrar e sair por garagens, e não por portarias ou espaços comuns: “Se alguém pede para tirar foto, ele não nega. Mas é um transtorno”. Guto diz que, se nota uma arrumadeira ou faxineira o observando, Roberto se dirige a ela e pede um abraço. “Ele jamais passaria de cabeça baixa por pessoas assim.”
Guto, que também negocia com compradores de shows, avalia sua rotina: “É muito estressante, você tem que ser muito calmo. Mas o prazer é o que compensa. É bacana ver a expectativa das pessoas chegando no show e, no final, elas indo embora satisfeitas. É um trem de alegria”. E completa a última frase com uma definição realista: “As pessoas compram sonho, a gente vende ilusão”.
O produtor executivo levava vida bastante diferente antes de entrar no show biz. “Saí do volante de um caminhão. Meu pai tinha um depósito de material de construção. Com a quebradeira do Plano Cruzado, fui puxar pedra e areia na via Dutra.” Sua história combina à perfeição com o chefe. Na atual turnê, antes de cantar “Caminhoneiro”, ele conta que talvez tivesse essa profissão se não fosse cantor, por gostar imensamente da vida nas estradas – que, por sinal, tem feito parte de sua rotina nos últimos 50 anos. “Ele adora mesmo, já foi visto por fãs dirigindo o ônibus do staff”, ri Guto.
O mito de que RC é um homem que evita mudar a todo custo se revalida a cada depoimento. Na banda de apoio, hoje com 17 integrantes, há músicos que já o acompanhavam nos anos do iê-iê-iê ou ao menos desde os anos 70.
O guitarrista Aristeu Alves dos Reis, por exemplo, tem 62 anos e conhece Roberto desde a Jovem Guarda, quando integrava a banda de Erasmo – tocou com ele no clássico “Sentado à Beira do Caminho” (1969). “Eu sou do rock da pesada”, define-se. “Comecei a fazer medicina, mas este é um caminho sedutor se você começa a ganhar um dinheirinho... Se descobre a oportunidade de ganhar com uma coisa que gosta de fazer, coisa de moleque, aí você se envolve. No palco a gente se diverte às vezes mais do que o público.” Fixo na banda desde 1973, Aristeu aproveita os momentos de folga para tocar, praticamente anônimo, em bares do bairro paulistano de Santa Cecília.
Há 35 anos na banda, o baterista Norival d’Angelo participou do grupo de iê-iê-iê Os Beatniks e integrava a banda de apoio do Secos & Molhados quando foi capturado por Roberto. Hoje tem também o cargo de coordenador da banda. Cuida de detalhes burocráticos, como comunicar agenda e horários aos demais.
Assume a liderança em negociações salariais ou de outra natureza. “Não é uma coisa que eu faço deliberadamente, mas, às vezes, em comum acordo com todos, sou o porta-voz do pessoal junto ao Dody.” Segundo ele, em geral os músicos ganham cachê por apresentação. “Quanto mais show tem, melhor para todo mundo. Uma minoria que está com Roberto há muitos anos ganha fixo. Se passa de certa quantidade de shows, tem um bônus.” Fala da estabilidade que o patrão aprecia.
“Desde que estou aqui, nunca o vi demitir alguém, às vezes até com motivos para fazer isso. Ele valoriza muito o emprego. Nas negociações, é claro que a gente leva em conta a consideração que ele tem com a gente, para não acabar sendo ingrato. Isso não acontece no mercado, não, há sempre rodízio de músicos, os artistas querem sempre renovação.” Àqueles que se queixam de a música do Rei redundar e não se modificar ao longo dos anos, a notícia é que talvez parte disso se deva a sua disposição de jamais se desfazer de músicos, maestro, capistas e assim por diante.
De fato, até as capas de seus CDs, sempre azuis, são concebidas há décadas por um mesmo profissional. E é sabido que até hoje ele paga salário a uma de suas primeiras divulgadoras de rádio, determinante em sua fase de consolidação, hoje aposentada.
Incorporado há menos tempo que a média, o tecladista Tutuca Barbosa, de 52 anos, está na banda há 25. Foi recrutado na Globo, onde era músico fixo, e por vários anos acumulou as duas funções. “Em dia de show, Roberto é sempre o primeiro a chegar, com no mínimo duas horas de antecedência. Nós vamos embora quando acaba o show, mas ele é o último a sair”, descreve.
Na atual turnê, há ainda uma orquestra de cordas, com dez integrantes. Músico da orquestra do Teatro Municipal e da Orquestra Jazz Sinfônica, o violinista Alex Braga fala sobre a junção dos mundos pop e erudito: “A gente adora. O cara é o cara. Não há mais esse tipo de separação, hoje músico de orquestra tem piercing e ninguém olha. E eu também tenho um quarteto que toca Beatles e Led Zeppelin”.
Entre os acontecimentos ainda por vir em 2009, há em dezembro o tradicional disco de Natal – desta vez, a gravação do show do Maracanã. “A gravadora o convenceu a guardar o disco de inéditas para o ano que vem”, Dody justifica mais um ano sem novas canções. O último CD só de inéditas foi Pra Sempre, de 2003, mas há material já composto, inclusive retomando a histórica parceria com Erasmo, interrompida desde a morte de Maria Rita, esposa de RC, em 1999. Um aperitivo do que pode vir a ser este próximo trabalho, a canção “A Mulher que Eu Amo”, foi concedida para a novela Viver a Vida, de Manoel Carlos. “Fiquei emocionado quando minha música tocou pela primeira vez em uma cena da Taís Araújo e José Mayer”, mais tarde comentou Roberto, atendendo a solicitação da Billboard Brasil. Até o fechamento desta edição, o Rei ainda não tinha autorizado a inserção da faixa na trilha sonora. E a faixa, composta apenas pelo Rei, sem a participação de Erasmo, é uma declaração de amor rasgada: “[...] Seu amor é para mim o que há de mais lindo/ se ela está sorrindo eu sorrio também/ tudo nela é bonito, tudo nela é verdade/ e com ela eu acredito na felicidade”. Dody contextualiza: “Há canções inspiradas em várias experiências, é possível que o próximo disco venha com toda essa carga de emoção que ele está vivendo”, diz, admitindo um inegável freio do RC compositor. “Alguns discos foram muito focados em seu sofrimento, discos mais para ele do que para o público. Não se contesta, foi sucesso igual de vendagem, embora nem tanto de execução em rádio.”
A volta à forma como compositor é uma incógnita que pertence ao futuro, mas a fase de vento em popa se reflete inclusive na vida íntima de Roberto Carlos. É recorrente nos bastidores a informação de que ele anda bastante ativo nesse departamento, e todos parecem gostar de alimentar o falatório sobre o Rei estar ou não namorando. “A pergunta é se é uma namorada ou se são várias”, cutuca Dody.
O saldo dos 50 anos, já se pode dizer, é mais um renascimento e um novo reforço na identifi cação entre RC e as largas camadas de público – já é clichê afi rmá-lo, mas na plateia de seus shows convivem em harmonia três gerações de fãs, de avós a netos e netas. O tempo só faz confirmar que, para o bem ou para o mal, Roberto Carlos é a cara do Brasil, daí a longevidade de tamanha empatia. “Como Roberto sempre fala, ele é o povo. Não precisou ter dez diplomas na parede para mostrar sua obra”, concorda o empresário, que estudou comunicação, mas tampouco possui diploma.
Antes de encerrar-se a entrevista, um último tema. Como o cantor e seu agente se posicionam diante de um novo mundo infestado de downloads e de vendagens de
discos em contínua queda livre? Dody admite que até agora optou por conter a liberação da obra via internet, por motivação econômica: “Viso o negócio, trabalho por dinheiro. A intenção é disponibilizar o conteúdo, mas estou esperando o mercado aquecer e estudando possíveis formatos de comercialização”.
Ele sabe que, enquanto isso, a obra de Roberto circula abertamente pela internet em cópias não-autorizadas, o que vale inclusive para o LP de estreia, o semi-bossa-novista Louco por Você, banido por determinação do cantor desde que se esgotou a primeira tiragem. Pois, se em muitos aspectos RC é tido como um homem conservador, seu representante exibe postura arejada em relação aos downloads, considerados “ilegais” pela indústria fonográfica. “Quando o mercado era disco, todo mundo gravava, comprava o disco e fazia cópia em cassete. O volume agora não é diferente. Reclamar disso é consolo para quem gosta de chorar. É porque a maioria das gravadoras é muito incompetente”, critica.
“A música ainda é um grande canal de receita, de faturamento. As gravadoras é que pararam no tempo. O futebol vivia de venda de ingressos, hoje isso não representa nada, o que dá dinheiro é o direito de imagem”, compara o gerenciador da imagem mais sólida, duradoura e rentável da história da música brasileira. O mesmo paralelo é levantado pelo indispensável Genival Barros, para quem “cantor é como um atleta, Roberto é como um atleta”. Aos 68 anos, o atleta Roberto Carlos segue enfrentando e vencendo maratonas.
Para servir sempre
Seja um taxista ou uma advogada, Roberto Carlos sabe exatamente como cativar o fã
Não são poucos os observadores que se espantam, e mesmo se incomodam, com a durabilidade do pacto firmado entre Roberto Carlos e o Brasil grande. Talvez soe incompreensível para quem considera simplória sua obra caudalosa, simples e jamais rebuscada. Mas poucas coisas são tão fáceis de decifrar quanto a empatia Roberto-Brasil. Do olhar mais triste do mundo ao jeitão de homem do povo, RC concentra, condensa e reflete a imagem do brasileiro médio, do cidadão comum ali na próxima esquina. Ame-o ou deteste-o, cada um de nós se vê naquele sujeito pacato, afável, prestativo, prisioneiro de uma disposição algo submissa a sempre agradar e servir aos outros.
Não há nada de casual no fato de ele gostar de fazer canções para caminhoneiros, mulheres baixinhas, taxistas e gordinhas – e para românticos em geral. Aderaldo Jerônimo da Costa, um taxista paraibano de 57 anos que leva um dos integrantes da equipe da Billboard Brasil ao show do Ibirapuera, é evidência cabal dessa intensa e imensa identificação. “Roberto para mim é tudo. Eu não gostaria nunca de escutar a notícia da perda dele, prefiro morrer antes”, afirma. “Eu daria minha vida se pudese prolongar a vida dele mais 50 anos. Sou taxista, já fui caminhoneiro, ele fez músicas para taxista e caminhoneiro, fez músicas para mim.”
A adoração não se restringe ao CD (pirata?) com 540 músicas de RC em MP3 que ganhou da filha e diz ouvir o tempo todo. “Assisto aos especiais na TV chorando, com minha esposa ao lado tirando sarro de mim. Eu sonho muito com Roberto Carlos. Duas ou três vezes por mês, com certeza, sonho que a gente está conversando, passeando. Ele não me dá muita bola, mas está ali do meu lado. Meu pai morreu – em vez de sonhar com ele, sonho com Roberto”, dá bandeira da imagem paterna embutida no Rei.
Aderaldo nunca esteve num show de seu ídolo, e explica com objetividade a razão: “Tenho medo de ir porque vou me emocionar muito. Vou começar a chorar. Deixa eu curtir ele do jeito que sei”. O taxista não sabe, mas provavelmente o medo que sente é idêntico ao que seu ídolo sente de, por exemplo, não ser capaz de lotar o Maracanã de fãs iguais a Aderaldo.
Roberto joga com esse tipo de identificação o tempo todo. No show, repete a estratégia de se atrasar ao cantar determinados versos e escutar, com aparente prazer, o público se antecipar e cantar por ele as palavras que faltavam. Quando o público termina, ele malandramente retoma de onde parou, repetindo as palavras que os fãs anteciparam, como se dissesse “eu sou igual a vocês, vocês são iguais a mim, somos todos iguais”.
Sabe do efeito de identificação de cor, como expõe, textualmente, antes de cantar as desgraças amorosas de “Outra Vez”, e como repete na rápida conversa com a Billboard Brasil no camarim: “Aquilo é uma verdade. Quase toda vez que canto essa música o pessoal canta junto, mas não é só por isso, não. As situações de amor, sejam quais forem, sempre, ninguém vive sozinho. Pode ser ou um grande amor, ou uma grande alegria, um vizinho de repente está vivendo também. E tem ainda aquelas situações que a gente não gostaria que ninguém vivesse, mas tem sempre alguém vivendo. Tem sempre alguém rindo ou chorando por amor”.
Protegido à distância em sua casa de paredes adornadas por capas de discos do ídolo, Aderaldo saca outra justificativa para seu medo de se aproximar: “Vai que eu me decepciono com alguma coisa...”. E narra, entre sério e humorado, uma decepção já sofrida: “A primeira paquera que tive foi com uma morena de cabelos encaracolados, que dava certinho com a música “Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos” (1971). Tive uma decepção um tempo atrás, quando soube que a música foi feita para o Caetano Veloso. Me quebrou o encanto. Por isso que prefiro ficar no meu anonimato. Não quero me magoar, me machucar.”
A identificação não conhece barreiras de classe social (embora entre os chamados “intelectuais” ainda seja bastante praticado o esporte de negar e desdenhar o
Rei plantado dentro de uma República). Note-se, por exemplo, o relato de Vera Marchisiello, carioca de 51 anos, nascida no mesmo bairro da Urca onde Roberto mora (e onde morou outra brasileira honorária, Carmen Miranda), e formada em comunicação e direito: “Como costumam dizer, sou filhinha de papai, e sei que, ao gostar tanto do dito iê-iê-iê, fugi bastante do esperado, já que fui criada em meio à música erudita,estudo de piano e ballet clássico”.
Vera criou e conduz o Gumarc – Grupo Um Milhão de Amigos, fã-clube com sede, acervo e site atualizado diariamente. “Minha admiração começou desde sempre,
pois era muito criança quando descobri Roberto. Digo que ele é o meu ‘Xuxo’.” Diferentemente de Aderaldo, Vera demonstra não temer a proximidade ao ídolo:
“Ele já esteve aqui certa vez, de surpresa, e já nos falamos muito por telefone sobre assuntos profissionais em que algumas vezes tenho podido ajudar um pouquinho. Até mesmo já estive em seu apartamento conversando por algumas horas. Eu tinha em Maria Rita uma grande amiga”.
Menos próxima é a pedagoga Gleide Moreira, de 68 anos, filiada ao Gumarc, mas radicada em Maceió, e apaixonada a ponto de entrelaçar suas histórias amorosas à figura do ídolo. “Sempre achei ele lindo, meigo, puro. Corria às escondidas de meu marido para ler reportagens, ele não achava graça no Roberto. Ouvia seus discos na ausência do meu marido, adorava especialmente ”Quero Que Vá Tudo pro Inferno”, evoca, citando a canção de 1965 hoje banida do repertório do artista,
devido à presença da palavra “inferno”. “Montei alguns álbuns sobre ele, mas um dia meu segredo caiu nas mãos do meu marido, aí perdi tudo. Mas recomecei, com
a nossa separação dei um grito de independência. Tenho todos os livros, até os que ele mandou retirar de circulação”, conta, súdita obediente-desobediente.
Passando por cima dos próprios medos, o taxista topa imaginar o que faria se, de repente, se visse cara a cara com o Rei. “Eu ia dar um abraço nele e dizer que o amo demais, demais mesmo, porque tudo que vivi na vida foi ao lado dele. Ele é um cara do bem”, explica Aderaldo, que certamente, lá no fundo, também se acha um “cara do bem”. Esta é a mágica: ter carinho e amor pelo homem que é a cara do Brasil e dos brasileiros – uma variedade de amor próprio, uma maneira de amar-se a si próprio.
O Rei e Eu
Além de jornalista e crítico musical, sou autor de um livro sobre Roberto Carlos: Como Dois e Dois São Cinco – Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa) – ed. Boitempo, 2004. Meu livro não foi um sucesso de marketing e, não sei se por isso ou por outros motivos, não foi interditado, como aconteceu a seguir com Roberto Carlos em Detalhes – ed. Planeta, 2006 –, escrito por Paulo César de Araújo, autor também do importante Eu Não Sou Cachorro, Não – Record, 2002 –, em que trata dos preconceitos da intelectualidade brasileira contra nossos artistas mais populares (RC incluso).
Morrendo de medo, escrevi e lancei meu livro sem pedir permissão ao Rei, mas roguei à Boitempo que lhe enviasse um exemplar assim que saiu da gráfi ca. Naquele dezembro, não compareci à tradicional entrevista coletiva de RC, mas soube por uma assessora da gravadora Sony que, na ocasião, alguém lhe perguntou sobre Como Dois e Dois São Cinco e Roberto respondeu, segundo ela, que ainda não tinha lido, mas acreditava que devia ser bom, pois me considerava um bom jornalista. Nenhum órgão de imprensa (nem a Folha de S. Paulo, onde eu trabalhava na época) publicou qualquer informação sobre esse detalhe. E eu, passados quase cinco anos, continuo sem saber se ele leu ou não leu, muito menos se tem alguma opinião sobre o livro.
Até poucos dias atrás, a maior proximidade que eu havia tido de RC se dera nessas situações absolutamente impessoais (e improdutivas, em minha opinião) de coletivas. Nunca entrevistei Roberto cara a cara, e sou um dos muitos jornalistas que se amontoam na fi la para fazê-lo, uma fi la que nunca anda. E de repente, na madrugada do último dia 4 de agosto, me vi dentro do camarim do artista (do meu ídolo, por que um crítico musical não poderia dizê-lo?). Eu e um dos diretores da Billboard Brasil, Antonio Camarotti, que eu conhecera poucos minutos antes. Poderia ter aproveitado para fi nalmente perguntar a Roberto sobre meu livro. Mas não o fi z, porque estava ali não como escritor, mas como o jornalista incumbido de construir uma reportagem sobre Roberto Carlos. Não cabia, até porque eu precisava usar aqueles preciosos minutos (foram cerca de quatro, nas minhas contas) para tentar arrancar alguma declaração do homem que não dá entrevistas.
E acabei perguntando sobre Lady Laura, até agora não sei explicar por quê.
Mas, não, espere, acho que estou inventando desculpas, meio à maneira do taxista Aderaldo – que me foi apresentado pelo Camarotti, de quem, a propósito, eu também estava com medo. Porque, sim, esta é a crua realidade: não perguntei porque estava morrendo de medo de Roberto Carlos.
Jornalista musical há 17 anos, me acostumei a enfrentar sem maiores sobressaltos fi guras históricas da MPB, como Chico Buarque e Caetano Veloso, ou outros de meus maiores ídolos, como Jorge Ben Jor, Rita Lee e Erasmo Carlos. Mas diante de Roberto Carlos, confesso, pela primeira vez tremi feito vara verde. Pensei mesmo que fosse dobrar as pernas e cair ali mesmo, na frente do cara. Vivendo e aprendendo...
Quanto a ele, não faço ideia nem ao menos se estava ligando o nome à pessoa, mas me pareceu reagir à tremedeira alheia com a naturalidade divertida de quem já viveu essa cena um milhão de vezes (e eu sobrevivi, viu, Aderaldo?, e perdi o medo de você, viu, Camarotti?). E eu, torno a repetir, gastei meu tempo perguntando sobre Lady Laura...
Continuo sem entender muito bem o que me deu, mas talvez tenha a ver com o fato de, para mim, o momento mais bonito e emocionante desse show (e, sim, eu tentei dizer isso a ele após o diálogo sobre Lady Laura) ser a sequência em que ele emenda “Aquela Casa Simples” (1986), “Meu Querido, Meu Velho, Meu Amigo” (1979) e, claro, “Lady Laura” (1978). Talvez, simplesmente, porque essas canções me lembram e me fazem sentir saudades de minha mãe e meu pai, da casa deles e da minha cidade.
Matéria publicada na primeira edição da Billboard Brasil (outubro, 2009).
Comentários
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Quero parabenizar a revista Billboard pela iniciativa de colocarem na capa do seu primeiro número,
nosso REI, Roberto Carlos o cantor mais amado do Brasil!!!
As reportagens estão de muito bom gosto, as fotos são lindas e a capa esta indescritível, só posso
desejar sucesso, o que será inevitável por tudo de maravilhoso que esta revista apresentou.!
ao passar na banca de revista,e dar de cara com a billboard brasil,com roberto carlos na capa quase chorei de emoção.ninguém melhor para inaugurar a versão brasileira da revista. parabéns a revista está maravilhosa. agora vocÊs,têem um leitor assíduo da revista.
Sejam bem vindos… demoraram, mas enfim, chegaram!! E chegaram em grande estilo, com o maior nome de nossa música. Absolutamente perfeito. Fotos, matérias, harmonização, entrevistas…
Billboard a número 1 no mercado editorial de música.
Roberto Carlos o número 1 mercado fonográfico latino americano.
Grande sacada.
Fabiano Cavalcanti
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